segunda-feira, 5 de maio de 2008

Palavrão


Exorto quem ler este texto a acompanhá-lo com a musica Book 1: Page 18 de Fantômas.


A linguagem. A comunicação partilhada. Quiçá das maiores tecnologias que o humano inventou e tenho as minhas dúvidas que depois dela tenha havido outra tão marcante. A internet será antes uma forma de veicular a comunicação. A internet será uma invenção comparável á do papel, enquanto a linguagem, a capacidade de simbolização é anterior a essa.

O próprio Freud assinalava a aprendizagem do uso da palavra como um marco fundamental no pensamento, pois este seria dificilmente manejável sem o recurso ao verbo.

Da minha parte estou cada vez mais convencido que o processo criativo, o processo da saúde, se apoiam num uso sustentado de uma linguagem que os vários elementos do diálogo entendam.

Uso sustentado? Apoio numa linguagem? Continuo muito vago.

Ilustrando:

Uma palavra é uma representação actualizada de algo que é sentido, palpável ou conhecido pelo sujeito. Através da palavra lembramo-nos da coisa sem precisarmos da sua presença. Vantajoso? Sem dúvida. Através do processo de significação das coisas por palavras (não necessariamente palavras, pintura, escultura, música...) damos um 'sentido' (foi sentido) ao nosso mundo interior. Agilizamos o pensamento, damos-lhe umas asas. Libertamos o pensamento da brutidade concreta e da horrorosa angústia de lidar com as coisas em si. Temos agora uma almofada na cabeça que nos permite conhecer os seus meandros sem que isso implique um ataque "ao corpo da mãe" como dizem os psicanalistas.

E enquanto debitava estas frases pensei no efeito da palavra Deus. A que corresponde essa palavra? Terá sido o inaugurar das palavras sobre abstracções o que é sem dúvida um avanço, e será esse o grande ponto positivo e o motivo principal pelo qual o Moisés disse: "Não pronunciarás o nome Dele em vão." O motivo pelo qual se começou a falar em Deus foi mesmo esse: agora somos independentes, nao precisamos de acreditar. Sabemos falar, nao precisamos de acreditar. Nós sentimos e não precisamos da sua presença! Não o Velho Barbudo, esse foi o sentido prejudicial que minou e amedontrou seres vivos até se lhes entrar nos genes, mas o pensamento articulado por palavras, palavras animadas por emoções, que permite conhecermo-nos a nós mesmos....

1 comentário:

Jorge disse...

A palavra.

Coitada da palavra.
Leva-as o vento.
Escreve-as a tinta.
Puta global.
Veículo extra-sensorial.